quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

CRIANDO E DESENVOLVENDO PERSONAGENS

Quem já leu meu livro Foices & Facões (F&F) deve ter percebido que muitos personagens são fictícios, outros não. Decidi optar por personagens fictícios no centro da narrativa da "Batalha" para ter mais liberdade criativa. 

Neste e no próximo post, listarei alguns dos personagens mais relevantes do livro, com uma pequena descrição ou curiosidade sobre cada um.

TEOBALDO – 40 anos, alto, forte e de modos grosseiros. Vaqueiro da Vila de Campo Maior. De poucas palavras, pouca educação, mas justo. Responsável pela sua família e por gerir a Fazenda Carnaúbas, cuidando de pequenas criações de gado e plantações.

Primeiro desenho que Caio Oliveira fez de Teobaldo. Arte final minha.

Teobaldo é um dos protagonistas e foi o primeiro que visualizei. Alguns anos antes de cogitar fazer F&F, criei um personagem chamado Corisco. Rabisquei algumas tirinhas sobre ele: um super herói nordestino que era uma mistura de Shazam com Thor. Esse visual de vaqueiro me parece bastante forte, por isso, mantive ele em mente.

Corisco, personagem que inspirou Teobaldo. Desenho meu, provavelmente de 2006.

Mas um rosto foi muito decisivo pra mim quando transformei o "Corisco" em "Teobaldo": o de Lance Henriksen, mas conhecido como o android do filme "Alien" ou o agente Frank Black, da série "Millennium". Ele é mais velho que o Teobaldo, mas o rosto que eu queria era esse, como se talhado a faca.

Lance Henriksen, dono do rosto que foi inspiração para Teobaldo

O nome Teobaldo me foi sugerido pelo Caio, que teria tirado de Grande Serão Veredas (ele jura que já leu esse livro). O fato é que eu gostei, pois de alguma forma, somente na minha cabeça, parecia uma derivação de "Ataliba O Vaqueiro", personagem do livro de Gil Castelo Branco, marco na literatura piauiense. Aliás, esse, um livro que li tanto quanto meu irmão leu Guimarães Rosa.


ZEZÉ – Garoto, 16 anos, franzino e curioso. Sobrinho de Teobaldo. Ajuda o tio nos afazeres da fazenda Carnaúbas. Recebe com entusiasmo a notícia da possibilidade de uma guerra e de participar dela, mudando radicalmente o cotidiano de sua vida brejeira.

Zezé foi bastante modificado, desde sua concepção inicial. Decidimos tirar o chapéu de palha por um de couro e tirar os cabelos lisos por encaracolados. 

Gosto muito do Zezé. De certa forma, é quem mais se modifica ao final da história, como se tudo o que acontece fosse para que de lá, tirasse uma lição.


JOANA – Garota, 17 anos, tímida, retraída, de olhar distante e ausente. Irmã de Zezé, é quem ajuda nos afazerem domésticos. Religiosa e esperançosa de que a guerra não aconteça, mas possui uma certeza fúnebre de que ela cairá com forte drama sobre a casa onde vive. Joana se apaixona por Luis.

Joana não teve esboço. Seu visual surgiu como uma variação mais nova de Dolores, sua mãe. Posso revelar que minha maior inspiração para essa personagem foi minha namorada, Natália.

DOLORES – Mulher, 38 anos, alta e magra. Irmã de Teobaldo. Viúva que educou os dois filhos (Joana e Zezé) com a morbidez que a morte do marido lhe atribuiu. É o espírito vivo que assombra a casa. Fria e de poucas expressões, poucos percebem que recebe com contida alegria a confirmação de uma guerra eminente.




JANUÁRIO – Homem, 45 anos, corpulento e roliço. Fazendeiro português, dono da fazenda Carnaúbas e patrão de todos os moradores de lá. Nervoso e fofoqueiro, defende os interesses coloniais lusitanos.


O nome Januário veio do pai do músico Luiz Gonzaga. Não sou bom de criar nomes e, o primeiro que me parece adequado eu coloco. Januário acaba sendo o "alívio cômico" do livro, mas acredito não ter caído no clichê das "piadas de português".

CELINA – Mulher, 30 anos, magra, alta e atraente. Casada com Januário. É uma muito religiosa e de personalidade forte, crítica e que mantém suas dúvidas e opiniões mesmo sob o julgo e a sombra do marido e da Igreja, que defendiam a política colonial lusitana.

Celina aparece pouco, mas gosto dela também e, se um dia eu escrever uma história que se passe antes da Batalha com esses personagens, ela terá grande participação.

AUGUSTO – Criança, 10 anos, baixo e gordo. Curioso, mas silencioso. Filho de Januário e Celina.




ESPERANÇA – Criança, 11 anos, alta e magra. Disciplinada e atenta aos fatos que acontecem em seu redor. Filha de Januário e Celina, irmã de Augusto.

LUÍS – Jovem de 20 anos, alto, forte e loiro, de espírito aventureiro e romântico. Batedor do exército imperial, natural de Lisboa. Prefere a paz, mas está disposto a guerrear se for necessário para defender as ordens que receber. É o soldado de maior confiança de Fidié. Luis se apaixona por Joana.

Esboço, referência e desenho de Caio para Luis.

Luis foi engraçado: Eu fiz um esboço e tinha na minha cabeça que ele tinha de parecer um desses meninos que fazem sucesso em Malhação. Como não sou um grande conhecedor desse tipo de referência, o primeiro rosto que me veio à memória, que parecia ter o biotipo europeu adequado ao personagem, foi o cantor Felipe Dylon. Caio pegou a ideia e fez direitinho.

CARLOS – Jovem, 22 anos, forte, alto. Ex-escravo que trabalha agora como estafeta (cavaleiro que faziam o antigo serviço de correios entre uma vila a outra em curto espaço de tempo), levando cartas e ofícios. Amigo de Zezé e de sua família. Se mantém distante das questões políticas, apesar de estar sempre bem informado.


Carlos tem uma coisa especial: de alguma forma, é uma homenagem a um amigo de infância que não vejo mais, Carlos Eduardo, o "Carlim", que era meu vizinho quando ainda morava em Piripiri. Carlos também tem um papel importante no livro, pois é ele quem carrega e costura as notícias entre a capital Oeiras e a fazenda Carnaúbas, onde a maioria desses personagens vivem. Assim, Carlos é quase um narrador, um historiador, e me identifico muito com ele.

sábado, 22 de dezembro de 2012

Começando a escrever o roteiro

Por volta de outubro de 2008, com tudo pronto e assinado, eu poderia começar a trabalhar no roteiro do meu quadrinho sobre a Batalha do Jenipapo.

Queria o foco principal da história em personagens fictícios de Campo Maior, então as coisas deveriam girar em torno disso, mas seria preciso leitura para desenvolver o roteiro. Sempre quis fazer algo didático e emocionante, mas com embasamento histórico. Acredito que minha formação em história pela UESPI foi fundamental.


Diante disso, comecei a procurar uma bibliografia: que incluía desde um cordel de Pedro Costa sobre o causo, textos do Abdias Neves até o livro escrito pelo próprio Major Fidié, no século XIX (obs: depois cito a bibliografia completa utilizada). Fui fazendo fichamento da leitura e, à medida que as ideias iam surgindo, escrevendo pequenas cenas. Foram cerca de 100 páginas (A5) escritas à mão apenas com anotações para embasar o roteiro.



Capa do livro de anotações: antes o projeto se chamava "13", como disse no último post.

Foi um processo muito prazeroso e não consigo lembrar de ficar "travado" em algum momento. Na verdade, foi também um processo relativamente lento. Demorei seis meses escrevendo o roteiro à medida que ia fazendo as leituras, me informando e criando cenas cronologicamente bagunçadas, que depois fui montando como um quebra cabeças.

Fichamento do livro Obras Completas, de Monsenhor Chaves.

Em minha primeira proposta o roteiro se desenvolveria apenas em Campo Maior, só depois acrescentei as cenas nas outras cidades, depois de Chagas Vale (diretor da FUNDAC) pediu que eu arrumasse isso, por que poderia ser um problema com relação a Parnaíba e Oeiras. Ainda bem... A história ficou bem melhor desse modo.

Cena que escrevi à mão, no caderno de anotações.

Prometo colocar pra vocês, depois, um pdf todo editado, como se fosse um livro, com o texto original que escrevi e que meu irmão, Caio Oliveira, praticamente teve de adaptar. Eu chamo-o de roteiro-romanceado. 

quinta-feira, 13 de dezembro de 2012

E faltava um título...

Lembro-me que o primeiro roteiro que escrevi para o quadrinho da Batalha do Jenipapo chamava-se apenas "13". Acreditem: não era uma alusão ao Partido dos Trabalhadores, do qual fazia parte o então governador Wellington Dias. Eu gostava da simplicidade numérica que era uma referência ao dia 13 de março de 1823, quando aconteceu a luta pela nossa independência na Vila de Campo Maior.

Em meus planos, havia traçado a ideia de escrever essa HQ se passando apenas na Vila de Campo Maior, por isso focar no 13. Mas o diretor da FUNDAC, Chagas Vale, em uma das poucas interferências no meu processo criativo, disse que eu precisaria incluir as outras vilas importantes no processo das lutas separatistas piauienses, ou seja: incluir Parnaíba e Oeiras. Por isso, o "13" no título estava descartado. Precisava de um novo título, mais amplo.

Felizmente, um ou dois anos antes, eu havia escrito uma letra chamada Réquiem aos Heróis sobre a Batalha do Jenipapo e entregue para amigos musicarem (obrigado Epifânio e Chico). Essa música pode ser escutada aqui. Meu irmão, Isaac Bruno, que conhecia esse texto, sugeriu que eu retirasse o novo título dos primeiros versos. Gostei. Ficou Foices & Facões.




Réquiem aos Heróis
(Bernardo Aurélio)

As tropas marcham a céu aberto
Com sede de matar
Espingardas e canhões
Contra FOICES E FACÕES.

As tropas marcham ao redor,
Com sede de calar
Tortura e prisão
Contra liberdade e paixão

Campos abertos, desertos
Preparado para a guerra
Campos maiores, cobertos
De sangue e corpos com terra.

Quem vence a luta
Na batalha pela liberdade?
Quem vence a justa
Nas duas pontas da verdade?

Quem irá contar os mortos
No final da batalha?
Quantos sairão vitoriosos
No final da campanha?

Nós lutamos guiados por ideais,
De homens que sabem o que querem
E morremos sem saber os motivos reais
Daqueles que fatalmente nos ferem.

quarta-feira, 12 de dezembro de 2012

Projeto aprovado, mas faltava um CNPJ



O projeto de criar uma história em quadrinhos da Batalha do Jenipapo foi imediatamente aprovado pelo Governador Wellington Dias.

Foi encaminhado para a Fundação cultural do Piauí - FUNDAC com um belíssimo "cumpra-se" escrito à mão pelo governador e com alguma indicação para conseguir verbas, através do Detran.

Os tramites burocráticos foram iniciados. Entretanto, havia um problema: isso deveria ser em abril de 2008 e o Núcleo de Quadrinhos (NQ) não tinha ainda um CNPJ, ou seja, apesar de realizar eventos desde 1999, o NQ não tinha representatividade formalizada e não poderia assinar um contrato para receber os recursos que viriam do Estado para patrocinar o livro. Por isso, precisamos pedir ajuda a Jimmy Charles, então presidente do Grupo APICE, que já conhecia há algum tempo. Jimmy assinou a papelada como se o grupo APICE fosse o produtor do livro e repassou toda a grana (ressalvando uma pequena taxa administrativa) para mim/NQ.

É claro que essa grana não caiu imediatamente em nossa conta. Demorou até que o contrato fosse assinado, e o recurso só estaria disponível em dezembro de 2008, até lá eu já havia começado a desenhar o livro junto com meu irmão, Caio... Mas calma aí! Até dezembro de 2008 muita coisa ainda aconteceu.

sábado, 10 de novembro de 2012

E surge um projeto


Como já disse antes, gostei de estudar a Batalha do Jenipapo durante a licenciatura em História que cursei na UESPI. Depois, fui trabalhar na Fundação Cultural do Piauí - FUNDAC e conheci a encenação que o Estado organizava, dramatizando os fatos. Com o tempo, fui percebendo a importância que os acontecimentos do 13 de março foram tomando dentro do governo Wellington Dias. Cada vez mais a encenação que acontecia no Monumento do Jenipapo ganhava recursos, investimentos no figurino, regravações de áudios, cobertura da imprensa, exibição ao vivo pela TV e shows musicais, com direito a barraquinhas de comidas típicas e cervejinha, transformando uma solenidade predominantemente militar, numa festa civil.




E a encenação passou a acontecer também em Oeiras (24 de janeiro), Parnaíba (19 de outubro) e mesmo em Teresina, por ocasião do 7 de setembro.

Daí veio o 13 de março ser bordado em nossa bandeira, como já expliquei antes nesse blog.



Obs: esse desenho tá muito ruim

Acho que por tudo isso, logo após as festividades comemorativas da batalha em Campo Maior, em 2008, comecei a fazer um projeto para fazer um quadrinho da Batalha. Em minha cabeça, era algo impossível de negar diante do atual interesse do governo pela coisa.

Infelizmente não achei aqui nas minhas coisas uma cópia do projeto que devo ter encaminhado ainda em abril daquele ano diretamente ao governador, no Karnac, e para a presidente da FUNDAC, Sonia Terra.

Não achei o projeto, mas encontrei as imagens que fiz para ilustrá-lo. São essas que podem ser vistas aqui. Podem ver que usei uma foto que fiz em 2005 como referência para criar uma das ilustrações.




Encaminhei o projeto e cruzei os dedos.

quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Bordaram o 13 de março.


Eu trabalhava na FUNDAC, entre 2005 e 2007, quando surgiu uma questão curiosa. Foi sugerido, por um projeto de lei na Assembléia Legislativa, que a data "13 de março de 1823" fosse bordada na nossa bandeira. Trata-se de uma questão delicada porque no Piauí temos três datas importantes no processo de independência do Brasil: o 19 de outubro, que foi a adesão de Parnaíba à independência, motivo pelo qual se é comemorado dia do Piauí; o 24 de janeiro, que foi a adesão de Oeiras ao movimento e o 13 de março, que foi a data da batalha do jenipapo. 

Percebam que há uma certa tensão política aqui. São três datas e três cidades. Isso mexe com o brio dos envolvidos. Aceitar o 13 de março em nossa bandeira pode ser entendido como a valorização do feito de Campo Maior, durante a batalha, em detrimento às datas comemorativas de Parnaíba e Oeiras. 

Lembro-me que, como também se tratava de uma questão cultural, o governador Wellington Dias encaminhou o projeto de lei que estava em suas mãos, no Palácio do Karnac, só aguardando sua assinatura, para a FUNDAC, que o repassou ao Conselho de Cultura do Estado. Lá, foi decidido que o governador deveria assinar o projeto de lei. Com o aval do Conselho, assim foi feito.

Isso ficou na minha memória, ao mesmo tempo em que a cada ano que passava, o governador investia um pouco mais, em Campo Maior, no teor cívico das festividades da data, que agora estava em nossa bandeira.


segunda-feira, 5 de novembro de 2012

E conheci a Batalha...


 Monumento do Jenipapo em Campo Maior, Fotos: Bernardo Aurélio


Quando saí da Universidade Estadual do Piauí - UESPI, concluindo meu trabalho de conclusão de curso em 2005, tive a oportunidade de ir trabalhar na Fundação Cultural do Piauí - FUNDAC. Ocupei o cargo de Coordenador de Artes, que é uma função muito importante dentro daquele órgão, pois fiquei encarregado de muitas pastas, incluindo artes plásticas, visuais e cênicas.


Layane Holanda e Bid Lima, na encenação de 2005. Não lembro o nome do ator que fez o soldado

Um dos primeiros trabalhos no qual participei, caí meio de paraquedas no meio do processo, foi a encenação da peça "Batalha do Jenipapo", escrita por Aci Campelo e dirigida por Arimatan Martins. Lembro-me que fiquei excitado com alguns diálogos. Gostava, particularmente, das falas do Leonardo Castelo Branco: "Que vos prende os passos? Que vos cala a língua?", ele bradava algo assim...



Participei dos ensaios e ajudei no mínimo possível. Não sabia ainda o que fazer, nem como fazer. Fui a uma reunião na Sala Torquato Neto junto com o diretor de ação cultural Chagas Vale, que era meu patrão e ele disse algo assim pra mim: "Agora é sua prova de fogo na FUNDAC. Reunião com todo o elenco principal da peça." Foi muita gritaria, mas divertido.



Fiz algumas fotos da encenação. São essas que estão ilustrando esse post.

Até a próxima!

Bernardo Aurélio.